Amar, verbo intrasitivo: idílio

Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, é uma narrativa que mergulha no dia a dia da abastada família Sousa e apresenta ao leitor a realidade da burguesia industrial paulistana e alguns de seus segredos.

Quando Sousa Costa contrata Elza, ela é apresentada como a professora de alemão, entretanto, a verdadeira missão dela é ensinar ao jovem Carlos a arte de amar. Classificado pelo autor como ‘idílio’ - texto leve sobre o amor - o livro trata com ironia a iniciação sexual de um adolescente, com uma narrativa experimental e escandalosa para a época.”

Informações:

Editora: Principis

Autor: Mário de Andrade

Ano da 1ª publicação: 1927

Ano desta edição: 2022

Gênero: Romance

Páginas: 128

“Se você ama, ou por outra se já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado.”

Nesta obra, Mário de Andrade já inicia a história com Sousa Costa encontrando-se - ou, neste caso, despedindo-se - de Elza (nossa protagonista), uma alemã que trabalhará como governanta em sua casa, em seu primeiro encontro ao contratá-la. Pois é, o enredo aqui tem um ritmo acelerado e, se o leitor não prestar bastante atenção aos detalhes, perderá nuances importantes para de fato compreender o que se passa e o que está subentendido nas entrelinhas desse romance.

Elza foi contatada para ensinar alemão aos filhos de Sousa Costa, mas o diálogo inicial entre esses personagens já nos deixa cientes de que essa não é a única tarefa dela - sua real missão é algo muito mais complexo e talvez até mesmo indecoroso do que isso. A preocupação inicial da personagem é de que os responsáveis da família estejam a par de suas reais funções e tenham consciência do que ela realmente ensina: o amor.

Elza é uma mulher madura que as famílias da elite brasileira contratam para que ensinem aos seus herdeiros homens sobre o amor e os perigos de se envolver com uma “mulher da vida”, para que não se iludam com falsos amores nem façam promessas em momentos de paixão fugaz, as quais não poderão - em hipótese alguma - cumprir: como promessas de casamento a alguém a quem a família não considere digna.

A primeira introdução ao ambiente familiar da casa de Sousa Costa é uma verdadeira confusão: Carlos é o mais velho, de apenas 16 anos, e é ele quem deverá aprender as lições sobre a vida, afinal está se tornando um homem; Maria Luísa é a primeira filha, ainda criança, age como uma mocinha por ser a mais velha das meninas; Laurita vem em seguida e a caçula é Aldinha, sempre envoltas de brincadeiras infantis e alheias ao que se passa em sua casa entre os adultos, sua governanta e seu irmão mais velho. Sempre que os irmãos aparecem juntos na trama estão em momentos de implicância uns com os outros ou em meras brigas, momentos comuns aos irmãos de verdade.

Quando as lições começam, as meninas demonstram grande interesse em aprender alemão, diferente de Carlos. Elas rapidamente mostram proficiência na língua, sendo sempre auxiliadas por fräulen. Elza, entretanto, frustra-se por não conseguir chamar a atenção de seu principal pupilo, encontrando obstáculos para fazer o que realmente fora contratada para fazer, afinal tudo devia ser ensinado na discrição. Ninguém poderia saber que fora admitida na casa apenas para ensiná-lo sobre os altos e baixos do amor, muito menos o próprio rapaz.

Sua estadia seria breve, acreditava. Faria o que fora paga para fazer, partiria o coração do rapaz como uma última lição e em breve, se pegasse apenas mais alguns trabalhos, poderia retornar para seu tão amado país natal. Ah, quantas saudades sentia da Alemanha, quão belo era seu país longe da guerra e quão bons eram os maridos alemães. Era com isso que ela mais sonhava, casar-se e viver uma vida plena em família, bem no estilo alemão tradicional. Elza sabia o que queria, conhecia bem a vida para se enganar com amores breves e palavras ao vento; fazia uma distinção clara entre o homem-do-sonho e o homem-da-vida.

Ainda assim, sempre se entregava demais ao realizar tais trabalhos.

“O amor nasce das excelências interiores. Espirituais, pensava. O desejo depois.”

Quando a esposa de Sousa Costa, enfim, compreende o que Elza fora fazer ali uma situação incômoda se instala entre marido, esposa e governanta. O homem não cumprira com o combinado de contar à mulher a verdade sobre o trabalho da alemã. Ninguém sabia como sair daquela situação: o marido levemente arrependido de sua decisão instiga a esposa a demitir fräulen; a esposa, constrangida pela circunstância, não sabe como reagir - afinal, o chefe da casa é o marido e ele sabe o que faz -; e Elza, frustrada pela indiferença de Carlos, está decidida a ser demitida. Tudo o que ela quer é que lhe paguem os 8 contos de réis prometidos, para que continue juntando seu dinheirinho com o objetivo de retornar à Alemanha e encontrar um homem-do-sonho para se casar.

Sem querer dar o braço a torcer e admitir seu erro, Sousa Costa falha ao tentar convencer a esposa. A alemã não é demitida nem pede a demissão e tudo continua a seguir seu rumo. Pouco a pouco, Carlos vai se atentando para a beleza da mulher, não aquela beleza idealizada, mas a real, a palpável, a mulher-de-verdade - e isso o atrai. E é aí que as lições começam.

Fräulen ensina a ele sobre o desejo, o jogo de sedução, a atração física, intelectual e sexual, os encontros secretos, os ciúmes e muito mais. Toda a situação que os envolve encontra-se subentendia nos parágrafos que compõem esta história, de maneira muito delicada um assunto tão complexo - e moderno para a época - é tratado aos olhos do público sem escandalizar, mas ao mesmo tempo causando certa revolta por toda a conjuntura.

Família da elite, vivendo em Higienópolis, donos de terras e fazendas, visitam o bairro da Tijuca acompanhados de Elza. Nesse evento, os protagonistas quase são pegos pela família do rapaz, que não conseguia ficar um momento longe daquela por quem estava obcecado. A partir daí, a mulher percebe a necessidade de se afastar aos poucos do jovem, preparando-o para a derradeira separação final dos dois, sua última lição: como partir um coração.

Fräulen recebe seu pagamento, despede-se de Sousa Costa e da esposa que a agradecem por seus serviços e vai embora da casa com o raiar do dia. Sua partida foi um pouco dramática, acredito, pois foi necessário encenarem um pouco para que a situação ficasse ainda mais trágica para Carlos. Sousa Costa os pegara em flagra. Tudo foi combinado entre o chefe da família e a governanta, é claro.

Elza, então, segue em direção ao seu novo trabalho em um novo bairro: mais uma vez ensinar um jovem herdeiro de família da elite sobre as alegrias e as dores que o amor frívolo podem trazer. Só há um problema: ela não consegue esquecer Carlos e não consegue parar de comparar seu novo pupilo com o último. O que acontecerá quando fräulen e o jovem se reencontrarem?

“Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências, metades, três-quartos e quando muito nove-décimos.”

Mário de Andrade estava muito a frente de seu tempo ao escrever essa obra.

Uma leitura breve, com um enredo acelerado, ele não poupa tempo com descrições exageradas, nem reflexões bobas. Sua escrita é interessante, devo confessar, pois a todo momento o autor como narrador interage com o leitor. Ele divaga em certos momentos sobre como nós percebemos os personagens ou sobre as pessoas que estão lendo o seu livro, mas na minha humilde opinião são esses trechos que deixam a história ainda mais interessante.

Tem uma parte com a qual eu pude me identificar 100% e acredito que os demais leitores também por terem passado por situações semelhantes, quando ele fala “se este livro conta cinquenta e um leitores sucede que neste lugar da leitura já existem cinquenta e uma Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena, cada um tinha a fräulen dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade com a moça, a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso. Outro mal apareceu: cada um criou fräulen segundo a própria fantasia, e temos atualmente cinquenta e uma heroínas pra um só idílio.”

Quantas vezes não lemos um livro e imaginamos um personagem para só então, bem depois do início do enredo, o autor vir descrever a aparência física do dito cujo? Muito obrigada pela sugestão, mas seguirei o que a minha imaginação trouxe à tona.

Enfim, gostaria de finalizar essa resenha dizendo que gostei da forma como Mário de Andrade escrevia (para quem não percebeu, este foi o primeiro livro dele que li), mas não recomendo esse livro para qualquer idade, principalmente por conta da temática desenvolvida e a crítica feita. O público-alvo desta obra é claramente de idade mais madura, para que possam compreender a verdade por trás do que foi narrado e participar da crítica feita, para de igual maneira se revoltar com certas práticas da alta sociedade de tempos antigos.

Se você já conhecia essa obra, ou se interessou por ela após esta resenha, não deixe de me contar como foi sua experiência de leitura!

“Isto é segredo de alemães. Os latinos nunca atingem tais extremos. Em verdade eles divagam no amor, não acha? O alemão fica. Ponto final. O latino ondula. Reticência.”

Mário de Andrade

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