“Em uma introdução a 'O curioso caso de Benjamin Button, Fitzgerald escreveu que baseou esta história numa observação de Mark Twain - ele afirmava ser uma pena que a melhor parte da vida viesse logo ao começo e a pior parte ficasse para o final. Neste conto, Fitzgerald inverte esta lógica: o esperado bebê do casal Button nasce com setenta anos, 1 metro e 73 centímetros de altura, uma barba proeminente e muitos cabelos brancos. Para além do estranhamento inicial que o nascimento causa na Baltimore do século XIX, Benjamin, a cada dia que passa, fica menos enrugado, menos curvado e mais jovial.
Publicado pela primeira vez na revista Collier’s, em 1921, o conto foi eternizado no cinema com a atuação de Brad Pitt, que interpreta Benjamin durante toda a vida. Este personagem que vai rejuvenescendo ao longo dos anos levanta uma das maiores questões da humanidade: como lidar com a inexorabilidade da passagem do tempo.”

Editora: L&PM Pocket
Autor: F. Scott Fitzgerald
Ano da 1ª publicação: 1922
Ano desta edição: 2017
Gênero: Conto
Páginas: 95
Obs.: Esta edição contém ainda o conto Bernice corta o cabelo, publicado pela 1ª vez em 1920
A família Button era uma família muito bem posicionada na hierarquia social da Baltimore do século XIX. Roger Button e sua esposa estavam na expectativa do nascimento de seu primeiro filho, suas posições sociais seriam ainda mais estabilizadas e o chefe da família já tinha a jornada da vida do herdeiro toda traçada, cada passo, cada decisão seria para alavancar ainda mais o status dos Button. Seria uma conquista…
Tudo desmorona quando, ao chegar na maternidade, Roger Button se encontra com o médico da família - quem realizara o parto - em um estado de atordoamento inesperado. A situação não melhora com as enfermeiras e os demais funcionários da instituição de saúde. Cada vez mais nervoso com o que se passava e tendo o nascimento do filho como sua única preocupação, o homem é encaminhado até a “sala do choro” onde encontra, em meio aos recém-nascidos, um homem idoso que aparentava ter 70 anos. Com os cabelos brancos e uma barba enorme, o primeiro encontro entre pai e filho não foi nada como o homem havia programado.
A infância de Benjamin fora repleta de situações inesperadas. Ainda que sua aparência e seu intelecto mostrassem a vivência de décadas, a família não aceitava a condição do herdeiro, e Roger Button fazia tudo que estava ao seu alcance para ignorar o estranho acontecimento do nascimento de Benjamin e para que ele crescesse e se desenvolvesse assim como as outras crianças de sua idade. Sempre muito solicito, o filho entendia o comportamento da família - ainda que para nós, leitores, não seja aceitável - e fazia tudo que estava ao seu alcance para agradá-los e cumprir com o que era esperado dele, seja ficar “brincando” com um chocalho, trenzinhos, usar calças curtas e até ir para a pré-escola.
Porém o estranho fenômeno que envolveu a existência de Benjamin não para por aí. Certo dia, ao se olhar no espelho, ele percebe que está ficando mais jovem, os cabelos estão ficando mais pretos, as rugas e linhas de expressão desaparecendo, sua postura mais ereta e seus ossos mais firmes. Conforme Benjamin Button envelhece, sua aparência - e mentalidade - rejuvenesce.
Quando ele tinha por volta dos 20 e poucos anos, porém aparência de 50 anos, conhece a jovem que viria a se tornar sua esposa, Hildegarde. Ela se encanta pelo que acredita ser um homem de vivência e, mesmo com a reprovação de diversas pessoas da sociedade, por conta da “diferença de idade”, seus primeiros anos de casamento são os mais felizes. Benjamin venerava a esposa na juventude, porém, com o passar do tempo, seu gosto por saídas sociais e diversão vão apenas aumentando enquanto que o da esposa vai diminuindo. Ela o critica por sua “juventude” e ele já não mais entende o porquê - ou como - se apaixonara por ela. A distância entre o casal vai apenas aumentando até que ela vai morar em outro país. Ele permanece em Baltimore e, quando atingira a aparência de 18 anos, se matricula em Harvard onde demonstra excelência acadêmica e esportiva nos primeiros anos.
Quanto mais sua idade avança, mais sua aparência se renova. Ele vai morar com o filho, sendo rejeitado pelo mesmo por conta de sua condição. Quanto mais novo ele aparenta ser, mais sua mentalidade acompanha. Até que chega um momento em que o filho de seu filho, um bebê, se torna sua companhia favorita, ambos passam horas brincando juntos e inclusive ficam na mesma sala na escola. Algo similar acontecera no início de sua vida, quando sua aparência ainda era a de um velho - a companhia favorita de Benjamin fora o avô com quem compartilhara conversas profundas e confidências.
Se Benjamin Button nascera um homem de 70 anos, morrera como um bebê, esquecendo-se de tudo o que vira e experienciara, todas as memórias boas e ruins. E, no fim, bastou apenas fechar os olhos.
Bernice é uma jovem de família com uma boa posição social na área rural de Eau Claire, que vai visitar a sofisticada prima, Marjorie. Inicialmente com dificuldades para se inserir na sociedade do novo local, a jovem é rejeitada pelos rapazes solteiros - que dançam com ela e a entretem apenas para agradar Marjorie.
Ao ouvir uma conversa entre a prima e a tia, Bernice descobre que a acham desagradável e chata. Ferida em seus sentimentos, ela confronta Marjorie no dia seguinte, porém, por suas sensibilidades, não consegue manter o pulso firme no embate verbal com a prima. Depois de pensar muito em tudo o que ouvira sobre si, Bernice decide pedir a ajuda de Marjorie para aprender a socializar e a se tornar mais agradável nos círculos sociais.
É quando a lagarta vira borboleta. A nova personalidade de Bernice, complementada por sua boa aparência, começa a eclipsar a popularidade da prima, atraindo os olhares e favores dos rapazes mais cobiçados da região - inclusive de Warren, um dos pretendentes mais firmes de Marjorie que era sempre rejeitado pela mesma.
Com inveja de Bernice, a moça arma uma emboscada para se vingar sem manchar sua reputação, forçando a hóspede a cortar o cabelo na frente dos demais jovens - um escândalo na época. Sem o atributo que mais lhe favorecia, os rapazes perdem o interesse sobre a agora envergonhada Bernice, que tenta a todo custo manter sua dignidade mesmo sabendo que caíra como um patinho no plano da prima.
Ao chegar em casa, a tia revela que a senhora que daria o baile no dia seguinte em homenagem a Bernice detestava cabelos curtos e, portanto, a jovem não seria bem vista. Triste com sua situação, mas ainda querendo se manter forte, a moça finge indiferença na frente de Marjorie. Entretanto, no meio da noite, arruma seus pertences em uma mala com o objetivo de retornar para casa, onde pelo menos era querida.
Bernice foge no escuro da madrugada, mas não sem antes deixar uma lembrança do que ela havia passado nas mãos de Marjorie. Se a prima quisera puni-la por ter conquistado os olhares dos pretendentes, Bernice também se vingaria e, sem que Marjorie percebesse, corta os cabelos da outra, partindo de volta para casa e deixando as mechas na varanda de Warren.

Fazia um bom tempo que eu não realizava uma leitura tão rápida. Com contos tão curtinhos, não é de se surpreender que eu tenha finalizado em um dia.
Ler a história de Bernice fez com que eu me compadecesse da situação da moça, algo que pode ser visto ainda hoje em jovens que sentem dificuldade de socializar e de formar conexões com outras pessoas - principalmente na nossa sociedade atual em que os relacionamentos líquidos se sobrepõem aos sólidos.
Marjorie e seu comportamento egoísta, invejoso e insensível fez com que minha antipatia por ela se igualasse a minha empatia por Bernice. Personagens como Marjorie, infelizmente, também fazem parte da nossa sociedade: pessoas que não querem ver o outro crescer e realizar suas próprias conquistas, que querem sempre ser o centro das coisas e manter todos os outros à sua sombra e, quando não conseguem, sentem a necessidade de puxar o tapete e empurrar aquele que é visto como rival para baixo cada vez mais, bolando ciladas e armadilhas.
Gostaria muito de saber o que Fitzgerald imaginou ter acontecido depois do final do conto. Fico pensando em qual teria sido a reação de Marjorie ao acordar e perceber que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. Afinal, aqui se faz, aqui se paga, certo?
O curioso caso de Benjamin Button, por outro lado, me fez pensar na parte mental. Este conto, de igual forma, aborda temas como as relações sociais da época - que podem ser ainda atribuídas aos dias atuais -, mas também penso nas fases da vida. Como a pessoa em sua velhice se assemelha a um recém-nascido ao precisar de cuidados especiais e atenção redobrada tanto em relação ao físico quanto ao psicológico e à saúde.
O alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva e irreversível que afeta principalmente a memória, o pensamento e o comportamento. A pessoa afetada pode apresentar agressividade, agitação, mudanças de humor, desorientação, declínio mental, dentre vários outros sintomas.
É muito triste ver uma pessoa que era tão ativa, tão autônoma e independente tornar-se o oposto de tudo aquilo que fora na juventude. Infelizmente essa é, ainda, uma condição da qual não se tem uma causa única definida.
Não apenas uma leitura de lazer, mas - principalmente - de reflexão. Que curioso seria, viver o que Mark Twain afirmou ser “a melhor parte da vida” primeiro. Você concorda?
F. Scott Fitzgerald

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