“O sr. Bhaer, em uma de suas conversas, a aconselhou a estudar pessoas simples, verdadeiras e capazes de inspirar o amor onde quer que as encontrasse, dizendo que seria um bom treino para uma escritora. Jo acreditou em suas palavras, pois, sem hesitar, começou a estudar o próprio professor: um procedimento que muito o espantaria, se ele soubesse, pois aquele homem admirável tinha uma opinião bastante humilde de si mesmo.”

Editora: Pé da Letra
Autora: Louisa May Alcott
Ano da 1ª publicação: 1868
Ano desta edição: 2024
Gênero: Romance
Páginas: 542
Em sua obra, Louisa May Alcott retrata a rotina e a vida familiar de 4 mulheres - jovens meninas e seus desafios, amores, superações e diversões. Com uma escrita e visão muito a frente de seu tempo, a autora desenvolve um enredo revolucionário para a Literatura Feminina (o romance de “mulherzinhas”) e para o cânone clássico: uma narrativa verdadeiramente atemporal.
Conhecemos as irmãs March - Meg, Jo, Beth e Amy - ainda no final da infância e início da adolescência (das idades de 16-12 anos). Cada uma com personlidade bem definida e características próprias muito evidentes: Meg, a mais velha, é a mais responsável, mas também a mais vaidosa e sonha com riqueza, afinal, lembra-se do tempo em que seus pais viviam em meio a alta sociedade antes de perderem tudo. Jo, a mais rebelde, tem a ambição de ser escritora, com modos de menino, se diverte com travessuras. Beth, a mais tímida, é a pianista da família, criativa e talentosa, observadora e silenciosa. Por fim, Amy, a mais desenvolta da família, com modos sofisticados e graciosa, dedica todo o seu tempo livre a produzir arte de diversos modos, seja pintando, esculpindo, moldando… Jo e Beth são definitivamente as mais ambiciosas das irmãs com relação à carreira e ao futuro.
Compondo o resto da família temos a senhora March, mãe das meninas, apresentando-se sempre como uma figura-exemplo que deve ser seguida - conselheira e confidente das filhas, a personagem aparece como um modelo que guia para quando as jovens encontram-se em apuros ou sentem-se perdidas em meio a algum conflito. A relação entre mãe e filhas é definitivamente um dos pontos altos da narrativa. Já o senhor March, figura pouco presente, também aparece como um modelo de homem para as moças, não podendo servir como soldado na guerra civil americana, ainda assim ele parte para Washington no front de batalha para poder servir como pudesse (mesmo ajudando os feridos e doentes). Por outro lado, a tia March (tia do pai das meninas) é uma solteirona rica que passa as tardes em companhia de Jo, mas logo também se afeiçoa a Amy - é descrita como uma mulher rabugenta e com uma visão fechada em sua própria bolha.
Ainda temos os vizinhos: Laurie e o senhor Laurence, um rapaz solitário e seu avô, que logo fazem amizade com a família March. Laurie passa a ser companhia fiel de Jo e das demais meninas, participando de seus momentos de brincadeira e contribuindo com laços de amizade a bondade que elas lhe dedicam. Senhor Laurence muito rapidamente se apega à Beth e ao seu talento pelo piano. John Brooke, tutor de Laurie, também torna-se figura presente na vida das moças, principalmente quando observamos, no decorrer do enredo, o amor nascer e crescer entre ele e Meg.
A obra é dividida em duas partes; a primeira focando na adolescência das meninas e as descobertas comuns dessa fase, as confusões em que se metem, conflitos internos e picuinhas entre elas. Acompanhamos elas aprenderem, errarem, se corrigirem e superarem os desafios juntas. Já na segunda parte, observamos a vida adulta das irmãs March, os relacionamentos amorosos, temas como morte, perda e solidão, e a espera de um futuro imaginado, mas não concretizado, a insegurança com o avançar da idade, conflitos domésticos e maternidade.
É realmente uma obra que abarca o crescimento de uma mulher desde a sua adlescência até os primeiros anos da vida adulta, e todo o conflito interno (e externo) que acompanham as mudanças que sofremos.
Louise May Alcott se inspirou em si mesma e nas suas irmãs, e em diversas situações que viveram, para escrever a história de Meg, Jo, Beth e Amy - com ela mesma sendo Jo.
Meg, ainda na adolescência (com uns 17/18 anos) se apaixona por John Brooke, um tutor pobre. Contrariando as expectativas da tia March, os pais de Meg, ao conhecerem melhor o pretendente da filha, aprovam o relacionamento com a condição de que o rapaz conseguisse uma casa para que morasse com a esposa, arranjasse um emprego fixo (afinal, Laurie havia terminado os estudos com o tutor e estava seguindo para a faculdade) e Meg atingisse a idade de 21 anos. O casal passa por muitas dificuldades financeiras após o período de “lua de mel”, mas com união, confiança e diálogo, conseguem superar os obstáculos e seguirem cada vez mais fortes juntos.
Beth durante a adolescência fica doente após ajudar a cuidar da família vizinha na qual as crianças estavam com escarlatina. Esse é um momento tenso na narrativa, pois as meninas estavam sozinhas em casa (a mãe delas havia viajado para Washington a fim de cuidar do marido, que ficara doente, e não estava ciente do que se passava com sua filha). Todos os sinais indicavam que Beth não sobreviveria, mas graças aos cuidados incansáveis de suas irmãs, principalmente de Jo, a menina passou pelo momento mais difícil e sobreviveu, tendo como presente a chegada da mãe e, em seguida, do pai ao qual não via há meses. Contudo, a doença deixara sequelas; se antes Beth era quieta e solitária, agora ela mantinha-se ainda mais sozinha. Sem forças para acompanhar o pique das irmãs, preferia ficar no canto dela e raramente voltava a tocar o piano. Quando mais velha, a doença cobrara o seu preço, trazendo muito sofrimento para a família.
Jo, a escritora da família, era muito travessa e sempre se metia em confusões com Laurie. De personalidade forte, assim como Amy, as duas sempre se bicavam, mas faziam as pazes depois. Muito ligada à família e às irmãs, sentia-se sofrer ao ver cada uma seguindo seu próprio rumo quando a idade adulta chegou. Depois que Meg se casara e Amy partira em sua viagem, observando Laurie e Beth, sentiu que o que afligia a irmã mais nova era um amor não correspondido pelo jovem amigo e, portanto, decidira se afastar dele. Laurie chegara a pedir a melhor amiga em casamento, mas, decidida, Jo sabia que os dois não poderiam ficar juntos por terem personalidades muito semelhantes - as brigas e a infelicidade seriam certas se seguissem em frente com a ideia absurda de Laurie. Jo, então, partiu para Nova York, para trabalhar como professora das filhas de uma amiga de sua mãe. A mulher era dona de uma pensão e, lá, ela conhece o professor Bhaer - um alemão que se mudara para o novo mundo com o objetivo de criar o sobrinho órfão. Um homem inspirador e muito sábio, logo conquista a simpatia e admiração da moça, que sente a necessidade de impressioná-lo com suas conquistas e aprendizados.
Os dois se afastam quando Jo precisa retornar para casa ao saber da piora na saúde de Beth. Ainda que a semente do sentimento estivesse germinando em seu coração, Jo era muito fechada para a possibilidade - e Bhaer estava inseguro quanto à reciprocidade de suas esperanças. Um reencontro emocionante muda para sempre a desilusão de Jo.
Agora, Amy, quando Beth ficara doente pela primeira vez, fora mandada para a casa da tia March para que não pegasse escarlatina também. É nesse período que as duas se afeiçoam uma a outra. Tia March fica impressionada com a graça, refinamento e ambição artística de Amy e, tempos depois, junto com outra tia das meninas, decide convidá-la para uma viagem à França, onde ela poderia aprender mais sobre pintura e aperfeiçoar seus dons artísticos, além de desenvolver o intelecto, a cultura e a sofisticação de seus modos. Os anos se passam, Amy continua na Europa e tudo apontava que ela seria a filha que faria um bom casamento para salvar sua família e irmãs da pobreza. Resignada com esse destino, seu futuro ganha uma reviravolta quando reencontra Laurie, agora um rapaz desiludido no amor não correspondido por Jo e sem um propósito de vida. É Amy quem lhe dá uma bronca e o repreende por sua vida boêmica.
Amy e Laurie aprendem muito um com o outro e, quando a morte chega para a família March, é o rapaz quem apoia a moça que, não podendo retornar para casa sozinha, não consegue se despedir da irmã. Assim como ele serve de apoio para ela nos momentos difíceis, a menina serve como inspiração para que o rapaz torne-se uma versão melhor de si mesmo, mais responsável e consciente de seus atos e suas consequências.
Mulherzinhas é verdadeiramente uma obra que nos ensina sobre a necessidade que temos uns dos outros, de aprender com nossos erros e sempre buscar a melhor versão de nós mesmos, sem desistir dos nossos objetivos no primeiro obstáculo. Reconhecer nossas habilidades e valores, e que somos figuras importantes para aqueles que nos rodeiam, que podemos atingí-los e influenciá-los de alguma forma, por isso, devemos ser conscientes e responsáveis.

Ler Mulherzinhas fou uma experiência incrível, e em diversos momentos eu pude me identificar com as personagens e as inseguranças e desafios que enfrentavam.
Louisa May Alcott, como eu já disse, foi uma mulher muito a frente de seu tempo e soube retratar a rotina, as inseguranças, os medos, as ambições, os osnhos e a experiência feminina de maneira genial.
Inspiradora, a vida da autora e de suas irmãs não foi nada fácil, longe de romantizar os problemas financeiros, de saúde e obstáculos enfrentados na sociedade da época, Alcott representou muito bem o que era esperado da mulher nesse período e como podemos ser muito mais do que esperam da gente.
A felicidade pode estar na conquista familiar, conquista financeira, conquista profissional, basta que você siga o caminho da justiça, seja bondoso e correto em suas ações, ajude o próximo com o que puder e manter-se rodeado de pessoas com as quais você se importa e que se importem com você.
Uma coisa que gostei muito é como a jornada de O Peregrino foi incluída na narrativa e como essa obra influenciava a rotina e as decisões das irmãs. A religião aqui não é vista como opressiva, mas como o meio pelo qual você manterá a bondade e a justiça vivas em sua vida, inspirando-se nas figuras que devem realmente ser seguidas como exemplo.
Mulherzinhas é uma obra que deve ser lida e absorvida, pois traz lições importantes para diversas etapas da vida, nos mais variados sentimentos e situações que você pode vir a enfrentar.
Louisa May Alcott

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