“Em um rincão esquecido do sul do Brasil, um menino foge da carneação como quem foge de um destino. Enquanto o país celebra vitórias em campo, a violência se infiltra nas casas, escolas e corações. Vitório sente a dor dos bichos e, sem saber, também a do país. Melchor, um professor foragido, carrega as marcas da repressão e ensina o que ninguém quer ouvir. Mas onde há silêncio demais, até a bondade pode matar. Ninguém Ouve o Sangue entrelaça lirismo e denúncia, ternura e brutalidade. É um romance sobre o que sustentou a ditadura: o medo, o conformismo e a indiferença. Com ritmo fragmentado e precisão poética, Elizandro Todeschini dá voz ao que foi calado. Um livro que não pede leitura pede escuta. E deixa marcas profundas, mesmo sem levantar a voz.”

Editora: Litteralux
Autor: Elizandro Todeschini
Ano da 1ª publicação: 2025
Ano desta edição: 2025
Gênero: Romance Regionalista
Páginas: 167
Em um rincão remoto do sul do Brasil, Vitório é o filho mais novo de um caboclo antigo daquelas terras. Sua família trabalha com pecuária, tendo um matadouro como negócio próprio, abatendo bois para carneação e criando vacas para produção de leite. É um negócio bem-sucedido e todos os seus irmãos mais velhos ajudam o pai com o ofício, além de trabalharem na terra para tirarem os frutos que a plantação oferece.
Contudo, Vitório é diferente dos demais; o menino, sonhador e inteligente, tem apreço pelos estudos, sente curiosidade e uma necessidade de devorar novas informações - coisa que os irmãos não conseguem compreender e, por isso, zombam dele com frequência. Não apenas isso, mas o que mais o torna “estranho” para os demais é que ele não consegue presenciar o abate dos bois e das vacas. Sua empatia e compaixão pelo sofrimento daqueles seres irracionais transformava aquela tarefa em um fardo pesado demais para seus pequenos ombros carregarem.
Aquele pequeno pedaço de mundo, esquecido pela civilização, evidenciava uma vida dura e sofrida, mas também cheia de agradecimento e alegria nos pequenos prazeres da vida. Cidade de interior, todos se conheciam - e as histórias rapidamente tornavam-se lendas, como o caso do pai de Vitório que, órfão, ficou perdido na mata por alguns dias e retornou sozinho como se nada de ruim tivesse lhe acontecido; ou então o caso do funcionário que fora acidentalmente concretado; ou até mesmo o caso do viajante e seu cavalo que foram engolidos pelo lodo e nunca mais foram vistos.
Não demoraria para que uma nova lenda fosse criada…
Com a aposentadoria da professora Regina, a escola local é fechada - situação que agrada muitos alunos e seus pais que, agora, poderiam se concentrar nas atividades de produção de suas terras, e desagrada Vitório. Deovaldo, pai do menino, também não fica satisfeito com o ocorrido, pois era ele quem fornecia carne para a escola - o local estando fechado poderia causar um grande prejuízo para os seus negócios.
Após algumas semanas nesse impasse, enfim chega uma figura estranha, misteriosa e de aparência e origem duvidosas. Melchor é o novo professor, vindo da capital - Porto Alegre. Recluso, não interage com ninguém no momento de sua chegada, nem mesmo dá atenção às crianças que festejam ao seu redor. Mantendo-se alheio à vida naquele recanto do interior e na realidade daquelas pessoas, enclausura-se no seu novo alojamento, saindo apenas para fazer compras necessárias.
O forasteiro só é realmente visto quando, enfim, a escola é reaberta. - infelizmente, com uma grande evasão escolar, situação já esperada devido ao longo tempo sem aulas. A rotina volta ao normal para os estudantes, e Vitório - animado - senta-se na primeira cadeira da fileira do 6º ano (afinal, todas as séries estudavam juntas na mesma sala ao mesmo tempo). Qual não é a surpresa e o assombro, sem falar na confusão, dos alunos quando Melchor começa a falar sobre política, sobre um país opressivo e sobre um futuro que, para eles, não fazia sentido.
Em uma narrativa que, do presente, retorna ao passado e, em seguida, volta para o presente; o leitor acompanha com uma maior ênfase a jornada do professor. Entendemos, então, que o homem é foragido do regime militar. Que ele havia sido preso ao, influenciado por seus alunos universitários, juntar-se a um grupo que buscava libertar presos políticos. Em seguida, levado à Ilha das Pedras Brancas (também conhecida como Ilha do Presídio) e, conhecendo outro preso naquele local, junta-se a ele e, juntos, de maneira criativa, conseguem fugir do local. Não apenas isso, mas também matara um militar quando descoberto em um dos esconderijos de seu grupo.
Depois de tudo isso, Melchor, com o auxílio de um amigo, consegue uma nomeação para o cargo de professor da educação básica em um vilarejo enterrado no interior do Rio Grande do Sul. Lá, disfarçado, esquecido do mundo, buscava esconder-se da perseguição política que sofria. O problema? É que forças militares também estavam por lá.
Será Melchor capaz de exilar-se no fim do mundo com segurança? Será que ele será descoberto? Que influência essa figura terá na vida do inocente Vitório?

Vou começar dizendo que comecei lendo o livro achando que o protagonista seria Vitório quando, no decorrer da narrativa, o autor claramente muda essa posição para Melchor.
É uma narrativa com ideais políticos, uma visão um pouco deturpada da figura de Che Guevara - um assassino cruel e sem escrúpulos que, por algum motivo que foge a minha compreensão, foi endeusado pelo lado político da esquerda -, e (para a minha surpresa) demasiado rasa.
A figura de Melchor como professor me incomodou deveras, afinal esta é a minha profissão. A maneira como ele decidiu tratar do assunto político e econômico em sala não foi adequada. Como o próprio Vitório revela, eles não entendiam nada do que o homem falava. De igual maneira, Melchor não compreendia a realidade daquela gente.
Se ele se desse ao trabalho de aprofundar-se na rotina daquela comunidade rural e, dessa forma, incorporasse a noção desses temas de um jeito que realmente estivesse intrínseco com aquela vida dura e sofrida, talvez ele tivesse tocado mais corações e mudado a vida daqueles jovens, apresentando uma nova possibilidade de futuro e mudança de vida.
As vezes as pessoas esquecem que não importa o que você ensina - qualquer um pode ensinar qualquer coisa, principalmente hoje em dia -, mas como ensina - só verdadeiramente aprende aquele que foi cativado. Não nos importamos com aquilo que não entendemos ou aquilo que não é válido em nosso dia a dia, mas procuramos nos aprimorar naquilo que nos chama a atenção e que possui praticabilidade para nós.
Outra coisa que me incomodou no personagem foi sua agressividade e falta de sensibilidade para com a natureza pacífica de Vitório - menção honrosa para a cena em que ele persegue e mata uma raposa no meio da sala de aula na frente de todos os alunos e para a cena em que ele obriga a criança a assistir ao abate de um boi. Postura de um educador que quer mudar o mundo e garantir melhores oportunidades aos seus educandos? Eu acho que não.
Concordo que sua falta de tato e atitude grotesca podem ser consequências de tudo o que viveu e viu enquanto encarcerado; contudo, contraponho que não é com violência que você vai conseguir mudar o mundo e melhorar a situação do país - ele já está tão de gente ruim e violenta, concorda?
Concluo minha análise afirmando que teria gostado muito mais se o autor tivesse aprofundado a história de Vitório e sua relação com os animais, característica que o tornava diferente dos demais, ao invés do professor perseguido e vitimizado por algo que nem queria fazer e que se envolveu apenas por ter sido influenciado a isso pelos “acadêmicos”. Além, é claro, de ter mostrado mais da situação nos recantos inalcançados do nosso país, expondo a realidade dura que precisam enfrentar, onde os problemas dos “colarinhos brancos” acabam sendo irrelevantes, afinal, problemas reais (imediatos) são o que moldam seus cotidianos.
Por fim, não posso deixar de concordar com a citação final que acrescento logo abaixo. E, em ano de eleição, alerto: um governo que já dura quase 20 anos e não melhorou a situação do país até agora…, será que ainda vai melhorar? Ou usa e abusa da ingenuidade do povo para manter o poder em suas mãos?
Reflita, pesquise em fontes seguras e imparciais, informe-se e vote com consciência - e não por vingança, birra ou influência. Essa deve ser uma decisão SUA, assim como a responsabilidade dos seus atos é.
Elizandro Todeschini

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