O Seminarista

“Eugênio era dotado de índole calma e pacata, e revelava ainda na infância juízo e sisudez superior à sua idade; tinha inteligência fácil e boa memória. Além disso mostrava grande pendor para as coisas religiosas. Seu principal entretimento, depois de Margarida, cuja companhia preferia a tudo, era um pequeno oratório, que zelava com extremo cuidado e trazia sempre enfeitado de flores, pequenas quinquilharias e ouropéis.”

Informações:

Editora: Principis

Autor: Bernardo Guimarães

Ano da 1ª edição: 1872

Ano desta edição: 2019

Gênero: Romance

Páginas: 128

“Mas o tempo é o melhor, senão o único consolador das mágoas passageiras da vida.”

Amigos de infância, Eugênio e Margarida cresceram juntos no interior da fazenda dos pais do menino. O pai dela falecera em combate enquanto a mesma ainda era um bebê e, compadecidos da situação, o senhor e a senhora Antunes convidaram Umbelina e sua filha para morarem em uma velha e humilde casinha nas margens da vila de seu terreno. Assim, o destino uniu as duas crianças.

Ainda na tenra infância, um evento na vida de Margarida marcou sua figura no imaginário da mãe de Eugênio: uma cobra que, como um animal de estimação, se enrolou no corpinho da criança e a afagou com delicadeza. Imediatamente, Eugênio ao presenciar tal cena, chamou pelos adultos que espantaram o temível bicho. A partir de então uma comparação com Eva sendo tentada pela serpente no Paraíso e desviando o seu curso e o de Adão das graças do Senhor não pôde mais ser apagada da cabeça da senhora Antunes.

Com o passar do anos, os laços de amizade que envolviam os pequenos apenas se estreitavam cada vez mais. Parceiros de brincadeiras, aventuras e segredos, um não conseguia ver o futuro sem o outro e, grudados, andavam sempre juntos. Quando Margarida, já mais crescida, precisou assumir responsabilidades em sua casa para ajudar a mãe, passou a ser Eugênio quem não saía mais da casa dela, ajudando-a em suas tarefas para que pudessem passar mais tempo livres brincando e se divertindo pelo campo.

Contudo, o idílio infantil não duraria muito tempo. Já rapaz de 12 anos, os pais do adolescente queriam que este seguisse carreira eclesiástica - e ele tinha mesmo inclinação para isso, pois, sem contar seus momentos com Margarida, seu passatempo preferido era ficar junto ao pequeno oratório que tinha. Sua vocação religiosa seria o que o separaria de sua adorada amiga para todo o sempre. Ao atingir a idade necessária, seria mandado para o seminário a fim de estudar e ser ordenado para se tornar padre, separando o destino dele do de Margarida definitivamente.

“As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus.”

Os anos afastados não foram capazes de tirar um da cabeça do outro. Quatro anos se passaram desde que Eugênio vira Margarida e, enclausurado no seminário, estava sempre com os pensamentos presos nela. Ao  descobrir Ovídio e Virgílio e seus poemas com estilos românticos e bucólicos, inspirado pelo anjo do amor, tentou sua sorte com pequenos versos suspirantes sobre o campo e a menina de quem não conseguia se esquecer.

Ao ser descoberto, execrado pela audácia, recebeu penitências e conselhos vigorosos dos padres para apagar da mente tais paixões humanas - pobre rapaz, nem sabia o que era o amor ainda. Para Eugênio, seus sentimentos eram algo inocente, inspirados pela saudade da infância e admiração por aquela com quem passara a maior parte do tempo e da qual crescera junto. Ele, infeliz, tentou de tudo e, afundando sua cabeça nos estudos e nas obrigações, deixou de viver. Aos poucos, tornou-se como um fantasma pelo seminário, parecendo mais morto do que vivo. Ainda assim, seus esforços deram algum fruto e, aos poucos, foi aprendendo a ignorar sua inclinação amorosa.

Tudo foi por água abaixo, entretanto, quando, a pedido de sua mãe que não o via há 4 anos, retornou de férias para casa e reencontrou a doce menina. Eugênio parecia um bobo ao interagir com ela pela primeira vez em tantos anos. Ela, sem ainda perceber os primeiros resquícios do amor e o embaraço que causava no jovem, agira naturalmente e buscava fazê-lo sentir-se confortável nos locais em que juntos se divertiam inocentemente. A formosura de Margarida fazia com que todos os olhares se voltassem para ela, a moça - por outro lado - só tinha olhos para Eugênio.

Ainda assim, o enlace amoroso do jovem casal não poderia durar muito. Pouco tinham descoberto o florescer e amadurecer de seus sentimentos e já teriam que se separar novamente. Com a descoberta das reais inclinações dos dois, os pais de Eugênio, desgostosos da influência que a menina tinha sobre os sentimentos dele, tentaram fazer com que ele se voltasse contra ela e, vendo que não teria remédio, o mandaram de volta para o seminário com a decisão de que ele só poderia retornar depois que finalizasse seus estudos e se ordenasse, tornando-se enfim padre.

Assim foi feito, contudo nada do que tentassem conseguia apagar nele o amor que havia sido desperto pelas doces feições de Margarida. Mais uma vez o jovem se afundou nos estudos e nas obrigações eclesiásticas, seguiu os conselhos dos padres e sofreu penitências por seu singelo amor. Sete anos se passaram e as chamas do romance, ainda que não mais ardentes, aqueciam suavemente o coração do protagonista. Como uma última alternativa, os padres - em conluio com o senhor e a senhora Antunes relataram para o rapaz sobre o casamento de Margarida. Desiludido no amor que acreditava ser recíproco, Eugênio segue até o fim o destino que ofertaram a ele, tornando-se padre.

Ao retornar para casa, porém, recebe um chamado súbito para visitar uma moribunda em leito de morte. Quis os céus que os dois apaixonados se reencontrassem e, assim, a verdade veio à tona. Será um final feliz? Ou o amor puro dos dois não terá mais nenhuma chance?

“As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua.”

Eu simplesmente AMO o Romantismo, portanto não será de grande surpresa que meus livros favoritos, assim como autores, sejam desse período literário.

Bernardo Guimarães em mais um romance consegue nos transportar no tempo, encantar com as histórias de seus personagens e viver amores impossíveis.

Idealização da mulher, amor impossível, obstáculos intransponíveis, escapismo na natureza, pureza e singeleza de ações - aqui tem tudo isso e muito mais. Os personagens são cativantes e sua histórias nos fazem compreender suas motivações e torcer por sua felicidade.

Não é possível você ler essa narrativa e não torcer para que Eugênio e Margarida possam ficar juntos no final (acreditem, não é spoiler!). Os pais do rapaz são o maior impedimento para a concretização do amor já que, com o avançar dos anos e o amadurecimento do que sentia, assim que o rapaz compreendeu que verdadeiramente amava sua melhor amiga, decidiu que não mais queria ser padre. Ele estava disposto a abrir mão daquela que era sua vocação natural para casar-se com sua amada.

A armadilha preparada para ele, acho que é o que mais pesa para nos direcionar até o desfecho da obra. O reencontro dos dois no final é emocionante e, sim, o final nos deixa com um gostinho de “quero muito mais”.

Pronto para viajar para Minas Gerais do século XIX, se apaixonar, se revoltar, vibrar e chorar?

“Morta de amor por ele, seria um anjo, que chamava para o céu. Viva nos braços de outro, é a serpente que o arrasta para o inferno.”

Bernardo Guimarães

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