“Tudo neste livro é contra as regras batidas com as quais se conta a história da América Latina. Não nos sentimos representados por guerrilheiros ou por indignados líderes andinos e suas roupas coloridas. Não há aqui destaque para veias abertas do continente, mas para feridas devidamente tratadas e curadas com a ajuda de grandes potências. Conhecemos bem as tragédias que nossos antepassados índios e negros sofreram - mas, honestamente, estamos cansados de falar sobre elas. E acreditamos que todos os povos passaram por desgraças semelhantes, inclusive aqueles que muitos de nós adoram acusar.
Na história de quase todo país, é comum abrilhantar as palavras de figuras públicas e até inventar virtudes de seu caráter - e não passa de chatice ficar insistindo numa realidade menos interessante. Acontece que na América Latina se vai além: escolhem-se como heróis justamente os homens que mais atrapalharam a política, mais arruinaram a economia, mais perseguiram os cidadãos. Por isso, não há como escapar: é ele, o falso herói latino-americano, o principal alvo deste livro.”

Editora: Leya
Autores: Leandro Narloch e Duda Teixeira
Ano da 1ª publicação: 2011
Ano desta edição: 2011
Gênero: Biografia histórica
Páginas: 311
A resenha de hoje será bem diferente - estou sentindo um cheirinho de polêmica?
Se você não tem uma mente aberta, no sentido político, ou você tem uma convicção tão profunda no que acredita - ou no que fazem você acreditar - que não consegue ouvir ou ler algo diferente do que pensa, então essa leitura não é para você!
Com uma proposta totalmente diferente do que já vi, devo dizer que me surpreendi que dois jornalistas da revista Veja realizaram uma pesquisa de campo e redigiram essa obra. Dividido em 7 capítulos, cada um traz um personagem histórico diferente, um herói de algum país da América Latina - essa é realmente uma viagem geográfica e temporal. Preparados?
Começamos com Cuba e Che Guevara, fácil. Leandro e Duda narram a vida e a morte dessa figura tão presente no imaginário popular rebelde. Será que você conhece o seu herói? Homofóbico, assassino, racista, preconceituoso, um psicopata de primeira. Formado em medicina, juntou-se ao grupo de guerrilha de Fidel Castro e ascendeu à posições de lideranças as quais não tinha nenhuma capacidade para exercer. Foi graças a ele e aos irmãos Castro que Cuba foi de paraíso e rota de férias para miséria e destruição econômica. “Não caia na roubada de perguntar a um gari em Havana se era mesmo em La Cabaña que Che realizava seus fuzilamentos. ‘Che nunca matou ninguém’, gritou o funcionário para um dos autores deste livro em 2010. Logo em seguida, comentou o fato a um guarda, que ficou no encalço do arrependido jornalista.” - contam na biografia. Os autores também relatam um momento em que Guevara fuzila no mura um menino de 13 anos, apenas pelo crime de defender o pai. Discursando na ONU em 1964, deixa-nos embasbacados com o quão claro ele era com o que fazia em seu país e ninguém se importava com tais barbaridades. Aprendemos ainda que foi graças ao New York Times que essa figura se tornou famosa. Parabéns, Estados Unidos!
Os próximos personagens são os índios conquistadores: os incas, maias e astecas. Muito se fala sobre esses grandes impérios e esquecemos das pequenas tribos que conviviam no mesmo território e, por muitas vezes, eram dominados por tais inimigos. Quando os espanhóis chegaram na América, encontraram este território já envolto em batalhas internas. As pequenas tribos, ao perceberem uma vantagem na aliança com os novatos, correram para garantir sua vitória contra seus rivais. “Sem querer, o documentário Pachamama traz um grande ensinamento. Mostra que boa parte dos ativistas indígenas não sabe patavina sobre a própria história, aquela que querem resgatar. Ora, Atahualpa não foi líder dos aimarás, mas dos incas. Apesar das alianças de alguns povos aimarás com os incas, outros resistiram e foram subjugados em batalhas. É bem provável que povos aimarás tenham estado entre aqueles que não choraram - e até comemoraram - a morte de Atahualpa.” Migrações forçadas, sacrifícios humanos em rituais religiosos, torturas e dominação, o tanto que desconhecemos a verdade por trás desses povos é chocante.
Simón Bolívar é o protagonista do terceiro capítulo. Uma figura curiosa, pois era inicialmente um personagem da direita política, foi apropriado pela esquerda e escolhido como um herói desse grupo. Responsável por expulsar os colonos espanhóis da América, sua missão de vida era batalhar e livrar os países, seu sonho era unificar os territórios em uma única grande federação. Foi traído diversas vezes por seus comandantes que, ao serem deixados para trás para cuidar dos territórios já libertos, proclamavam a independência e tomavam controle de tal região. Apesar de ser venezuelano, suas conquistas o tornaram famoso e é em homenagem a ele que o país Bolívia foi nomeado. Criticado por Karl Marx, em carta para Engels foi chamado de “o mais covarde, brutal e miserável dos canalhas.” - Leandro e Duda explicam que “Bolívar é atraído para a esquerda só em 1992, quando o presidente Hugo Chávez, após tentar um golpe de Estado, começa a citá-lo em seus discursos e textos. De início, ninguém ligou. Mas com o tempo ficou impossível não reparar. Por obra do presidente venezuelano, Bolívar tornou-se um dos raríssimos casos conhecidos no universo de uma pessoa que, com o tempo, passou da direita para a esquerda.”
O capítulo quatro é todo dos revolucionários reacionários do Haiti. Explicando a fundo como se deu a abolição da escravidão e independência na ilha, ficamos impressionados como os ex-escravizados mal conquistam sua própria liberdade a base da violência e logo em seguida fazem de seus companheiros seus escravos. A revolta é narrada em detalhes, como um pequeno grupo se uniu e, sem a percepção dos colonos, armaram um plano para assassiná-los. A partir daí é só ladeira abaixo, o território foi dividido entre aqueles que queriam o retorno dos fazendeiros brancos à ilha e aqueles que queriam seguir agora com seu novo modelo de produção. O resultado? A queda da economia e o empobrecimento da ilha. “Dessalines, porém, seria logo vítima de uma conspiração de seus próprios seguidores: morreu em 1806 tentando reprimir uma revolta. Depois dele, o Haiti se dividiria em dois: ao sul e a oeste, o mulato Alexandre Pétion manteria a República; ao norte, Henri Christophe, antigo general rebelde, criaria um reino independente. Foi com ele que a tragédia da Revolução do Haiti, já tão cheia de episódios estranhos, chegaria a seu ponto mais extravagante.”
Em seguida visitamos a Argentina de Perón e Evita - com foco mais no primeiro. “É só Perón aparecer para que a Argentina comece a apontar para baixo.” - revelam. O país que antes era visto como extremamente rico e com um futuro brilhante tem sua queda quando um jovem militar ascende ao poder. Ele inicialmente foi enviado à Europa durante a Segunda Guerra Mundial, sua missão era estudar a situação para que o país tomasse uma decisão quanto a sua posição no conflito. Quando retornou, só trouxe elogios ao fascismo de Mussolini e ao nazismo de Hitler. A decisão estava tomada e Argentina abrigou diversos nazistas fugitivos ao final da guerra - inclusive Mengele (conhecido como Anjo da Morte), médico responsável pelos experimentos genéticos nos prisioneiros dos campos de concentração. Perón criou diversos benefícios para os trabalhadores como 13º salário, folgas semanais, assistência social, aumento de salários e redução de jornadas de trabalho; contudo, “sentindo-se imunes à perda do emprego, os empregados começaram a faltar como nunca.” Diversos movimentos foram feitos para tentar disciplinar os funcionários, mas as medidas de Perón dificultavam a situação e aconteceu o que todos previam: a economia quebrou completamente. Evita foi a segunda esposa do presidente e curiosamente faleceu com a mesma doença de sua antecessora (câncer de colo de útero), seu cadáver foi embalsamado e transportado por onde Perón ia. Após a morte da segunda esposa, o líder argentino encontrou consolo nos braços de meninas de 13 anos que faziam parte da organização estudantil que ele abrigava na residência presidencial de Olivas. Sua morte, um alívio ou apenas uma passagem de “abacaxi”?
Pancho Villa ocupa o capítulo 6 dessa obra. O latifundiário mais famoso de Hollywood era um guerrilheiro mexicano que não tinha escrúpulos, muito menos via problema em assassinar e tomar para si terras de seus compatriotas. Por outro lado, protegia os americanos por receio de ter sua rota de armas bloqueada. Sua fama se deu aos cineastas de Hollywood e. olha que interessante, ele mesmo se interpretava. Sem importância para os fatos reais, Pancho não se recusava a seguir as instruções dos roteiros que faziam sobre sua vida, mesmo que tais eventos nunca tivessem acontecido. Sabem como é: um toque de drama e tragicidade são pratos cheios para “a fábrica dos sonhos”. Seus guerrilheiros, conhecidos pelo uso da maconha, por conta de um desentendimento com um magnata da imprensa americana, deram a munição necessária para que o termo “marijuana” fosse criado. “Pancho não fez a reforma agrária por que não quis. Durante os dez anos da revolução, ele confiscou muitas terras, mas não deu nada aos mais necessitados. (…) Na reforma agrária de Pancho, quem se beneficiava eram apenas os soldados de alta patente de seu exército.” Um Robin Hood que roubava dos ricos e dos pobres, sem distinção, contanto que não fossem americanos - será isso igualdade?
Por fim, Salvador Allende fecha o livro com o capítulo final. Sua fama se dá em grande parte ao grupo artístico que fugiu das ditaduras de seus países em direção ao Chile e encontraram no país um paraíso socialista em gestação. Fizeram vistas grossas às atitudes antidemocráticas do líder e exageraram a maldade dos opositores. Ele seguiu o passo a passo de como destruir seu país de Che Guevara e inclusive disse: “Não deve haver lugar para objetividade no jornalismo. O dever supremo dos jornalistas de esquerda não é servir a verdade, mas a revolução.” Manipulação da informação é o que não faltou nesse governo - não apenas na mídia, mas nas escolas também. Entretanto, diferente de Cuba, sem o apoio financeiro da União Soviética a quebra do país aconteceu mais rápido. “No poder, Allende seguiu as três atitudes infalíveis da ruína econômica. Dentro dessa cartilha de destruição financeira, que funciona em todos os lugares onde é implantada, fez ataques a multinacionais que levaram à fuga de investidores estrangeiros. Nacionalizações resultaram na queda da capacidade empreendedora e da produção de bens. Com menos arrecadações e mais gastos, o governo teve de imprimir mais dinheiro e, assim, provocou inflação.” Além disso, “Allende se negou, em 1972, a extraditar Walter Rauff, criador dos caminhões de gás que exterminaram meio milhão de seres humanos. O presidente alegou que as acusações contra Rauff já haviam expirado. Crimes contra a humanidade, porém, são imprescritíveis.”
Em 1973 suicidou-se, após um discurso dramático na rádio, para fugir da punição e do golpe que os militares organizaram. “A atitude extrema de Allende, eleito presidente em 1970 pela coligação de partidos Unidade Popular, celebrizou-o como um mártir da esquerda na América Latina e no mundo. O fato de ter sido substituído pela cruel ditadura de Augusto Pinochet, que durou 17 anos, fez com que ganhasse a aura de defensor heroico da democracia, dos menos favorecidos, da liberdade de expressão. (…) foi também o pioneiro em destruir a democracia de dentro dela mesma.” Quantos nazistas e assassinos saíram impunes graças a Allende, Perón e outros líderes latinos, me pergunto…

Em tempos de egos inflamados…
Pergunto-me o quanto deixamos de aprender história real na escola. Quantas informações mal interpretadas ou propositalmente enganosas são ensinadas todos os dias há tantos anos…
No final das contas, a história da humanidade continua sendo reescrita todos os dias por aqueles que querem ganhar vantagem, por aqueles que querem apagar o passado da memória das pessoas substituindo com algo que convém às suas narrativas. Afinal, a nossa memória é tão curta, não é mesmo?
Essa leitura é uma verdadeira aula de história que eu não esperava receber, com muitas coisas que antes não entendia e agora não há como negar. Contra fatos não há argumentos e com tantos registros, é até embaraçoso ver a teia de mentiras que continuam tecendo.
Você está preparado para ter seus olhos abertos ou para receber ainda mais informações e aprender além do que já sabe? Essa obra é perfeita para aqueles que tem curiosidade histórica e política, prendendo a sua atenção a cada página e apresentando registros em imagens e transcrições de discursos e relatos orais.
Bons estudos!
Simón Bolívar

Inscreva seu e-mail para receber notificações com as novidades sobre o Blog.
Se você quiser mandar uma mensagem ou uma sugestão, clique no botão abaixo e acesse o perfil do Blog.
Ah, e não deixe de nos seguir!
We use cookies to improve your experience and to help us understand how you use our site. Please refer to our cookie notice and privacy policy for more information regarding cookies and other third-party tracking that may be enabled.