O Guarani

“- Peri é mau e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, vai caçar em risco de morrer! - disse a moça ressentida.

-Ceci desejou ver uma onça viva!

-Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma coisa para que tu corras atrás dela como um louco?

-Quando Ceci acha bonita uma flor, Peri não vai buscar?

-Vai, sim.

-Quando Ceci ouve cantar o sofrer, Peri não o vai procurar?

-Que tem isso?

-Pois Ceci desejou ver uma onça, Peri a foi buscar.”

Informações:

Editora: Principis

Autor: José de Alencar

Ano da 1ª publicação: 1857

Ano desta edição: 2019

Gênero: Romance nacionalista

Páginas: 288

“É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande e majestosa, são verdadeiras epopeias do coração.”

No Brasil do século XVII, às margens do rio Paquequer - na Serra dos Órgãos -, uma família verdadeiramente portuguesa vive em tranquilidade habitando em suas terras. Antônio de Mariz é um típico português: religioso, honrado, sincero, corajoso e muito sagaz, sua família é composta por sua esposa, dona Lauriana - uma religiosa convicta, que sente desprezo pelos nativos da terra -, Dom Diogo - o filho mais velho e herdeiro -, Cecília - a encantadora filha mais nova -, e Isabela - que cresceu como sobrinha do fidalgo, mas na verdade é filha ilegítima dele com uma índia.

Este segredo familiar é um dos motivos de desconforto na família, além de exacerbar um desprezo já nutrido pela matriarca. A dinâmica muda quando surge Peri, um índio líder da tribo dos Goitacás. O rapaz, forte e valoroso, demonstra um encanto pela imagem de Maria - que avistara em um dos confrontos em que a tribo esteve envolvida. Durante uma tarde de ócio de lazer, Cecília correu perigo de vida ao quase ser acertada por uma pedra; sendo salva por Peri, a família e a moça demonstram sua eterna gratidão.

Foi amor à primeira vista, e Peri decide dedicar sua vida a proteger sua amada. Com a permissão de Antônio de Mariz, o guerreiro passa a viver nas terras da família e a sempre acompanhar Cecília, mesmo que esta não correspondesse aos seus sentimentos, não se importava - sua felicidade era vê-la feliz. No início, a moça o desprezava e tratava-o muito mal, por isso, Peri passa a chamá-la pelo apelido de “Ceci”, que significa dor, sofrimento na língua dele.

Contudo, Cecília - ao perceber o que suas ações provocavam no jovem que sempre a tratara bem e respeitara - corrige-se e passa a ser graciosa para com ele. Peri se apaixonava cada vez mais, entretanto, respeitava e entendia que esse relacionamento nunca poderia passar de uma amizade; até porque, Cecília estava apaixonada por Dom Álvaro, um jovem aventureiro que fazia parte dos homens de Dom Antônio de Mariz. E  rapaz, aparentemente, a correspondia.

“O sentimento é uma flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma gota de orvalho e um raio de sol.”

Além de Álvaro, mais um homem buscava as afeições de Cecília: Loredano, mais um dos aventureiros de Dom Antônio de Mariz. Contudo, sua obsessão pela menina o tornava sanguinário e perigoso, os sentimentos que nutria derivavam de um lugar de ganância, avareza e inveja.

Loredano na verdade era um ex-frade carmelita italiano - Frei Ângelo Di Luca - que abandonou a vida religiosa ao encontrar o mapa para as minas de prata de Robério Dias. A partir de então seu objetivo passa a ser materialista - enriquecer a todo custo. Seus planos enfrentam uma pausa quando conhece a família do fidalgo e vê pela primeira vez a filha mais nova dele. Então, sequestrar Cecília e levá-la consigo, destruindo as riquezas de Dom Antônio de Mariz, passa a ser uma etapa essencial de seus planos.

Para isso, ele recruta alguns dos aventureiros do fidalgo que tinham caráter duvidoso. Não só isso, mas até os que eram homens honestos e sinceros em suas obrigações passam a ser seduzidos pela língua afiada do vilão, que a todo custo coloca-os contra seu empregador.

Tornando o enredo ainda mais agitado, Dom Diogo acidentalmente mata uma índia. Esse evento gera uma reviravolta quando a tribo dos Aimorés retorna buscando vingança - Peri piora a situação (ou melhora?) ao matar o marido e o filho da índia falecida quando estes tentam retribuir a dor com uma armadilha fatal para Cecília. Com inimigos de todos os lados, Dom Antônio de Mariz buscará fazer de tudo para proteger a sua família.

Não apenas a ação é um grande elemento nesta narrativa, mas o romance de igual modo o movimenta bastante - afinal, descobrimos que Isabel também é apaixonada por Álvaro; e Peri, quando capturado pelos Aimorés torna-se o alvo das afeições de uma índia inimiga. Com tantos encontros e desencontros, perigos e obstáculos e serem vencidos, será Peri capaz de manter sua amada segura e feliz? Será que a família escapará a salvo dos ataques de ambos os lados? Quem Cecília escolherá? Loredano, Álvaro ou Peri?

“Não há homem verdadeiramente feliz senão aquele que já conheceu a desgraça.”

Esta é a segunda vez que leio O Guarani - a primeira foi quando eu não passava de uma pré-adolescente no final do ensino fundamental 2. Foi incrível ver como minha visão de leitura mudou com o passar dos anos.

Lembro-me que na época, queria muito que Cecília escolhesse Álvaro, e irritei-me com os personagens secundários que surgiram para atrapalhar esse casal tão puro e juvenil. Contudo, hoje, vejo como a obra seguiu um rumo sensato e - particularmente - prefiro Ceci e Peri.

Meu autor preferido, mais uma vez, consegue me encantar e envolver nas histórias de personagens que parecem pular para fora das páginas do livro e tornar vivas, diante dos meus olhos, suas jornadas de aventura e amor nas terras do Brasil recém descoberto.

José de Alencar conseguiu retratar o índio como herói nacional de maneira esplêndida, além de apresentar valores típicos de seu período literário: valorização das nossas terras, da nossa flora e fauna, da mulher - idealizada e elevada a um ser intocável - e das crenças daquele provo.

Diferentemente de Til e Diva, que me irritaram profundamente com seus romances, O Guarani torna-se, facilmente, um dos meus preferidos do autor (assim como A Viuvinha e Cinco Minutos).

“Quando se conta aquilo que nos impressionou profundamente, o coração é que fala; quando se exprime aquilo que outros sentiram ou podem sentir, fala a memória ou a imaginação.”

José de Alencar

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