“A bomba atômica matou milhares de pessoas na cidade japonesa de Hiroshima, em agosto de 1945. Um ano depois, a reportagem de John Hersey - que tomava a edição inteira da revista The New Yorker - reconstituía o dia da explosão a partir do depoimento de seis sobreviventes. Os acontecimentos ganharam uma nova amplitude depois da publicação da narrativa, que aliava o rigor da informação à qualidade de um texto literário.
Quarenta anos mais tarde, Hersey voltou à cidade, reencontrou seus entrevistados e completou o trabalho. Hiroshima permitiu que o mundo tomasse consciência do catastrófico poder de destruição das armas nucleares.”

Editora: Companhia das Letras
Autor: John Hersey
Ano da 1ª publicação: 1946
Ano desta edição: 2002
Gênero: Reportagem
Páginas: 172
Durante a Segunda Guerra Mundial, após a derrota da Alemanha, ainda levou um tempo para que os japoneses se rendessem. Com pressa para terminar com o conflito, o governo americano desenvolveu o projeto Manhattan (que pudemos observar os desdobramentos no filme Oppenheimer, de 2023).
Os cientistas envolvidos deram tudo de si, mas o que eles não esperavam era o que viria em seguida ao uso dessa nova tecnologia bélica. Hiroshima foi escolhida porque abrigava uma importante base militar e um grande centro de logística do exército japonês, além de possuir um relevo em colinas capaz de concentrar o impacto da explosão. Os Estados Unidos também buscaram uma área urbana densamente povoada e intacta para demonstrar o poder destrutivo da nova arma.
Em 6 de agosto de 1945, às 8:15 da manhã (horário local), enquanto os cidadãos seguiam com as suas rotinas, na expectativa pelo fim da guerra, aviões americanos foram avistados. O alerta tocou e todos se abrigaram – mesmo acreditando ser apenas uma aeronave meteorológica ou de reconhecimento. Não demorou muito para que um segundo alarme soasse, garantindo à população que os inimigos haviam partido e que estava tudo bem. Não estava...
Little boy, como foi chamada a bomba de urânio, caiu. Lentamente. Sem nenhum alarde, explodiu antes mesmo de tocar o solo. Quem estava próximo ao centro do impacto foi incinerado imediatamente. Apenas suas sombras ficaram como rastro de sua passagem pela Terra. As demais pessoas que estavam em localidades a quilômetros de distância do epicentro foram queimadas, tiveram suas peles arrancadas, os olhos derretidos, suas peças de roupa ficaram marcadas nas peles... Quem se encontrava ainda mais longe sofreu apenas o impacto do vento, sendo arrastado e soterrado pelas construções, alguns foram jogados nos corpos d’água...
Ninguém sabia o que estava acontecendo, ninguém entendia o que se passava. Estavam todos atordoados, desorientados… Como os americanos conseguiram realizar tamanha façanha? Como uma destruição daquela magnanimidade poderia ser possível? O que era a tal bomba atômica? Demorou muito tempo até que o mundo compreendesse o tamanho da tragédia.
Estima-se que entre 70.000 e 80.000 pessoas morreram instantaneamente com a explosão. Outros 70.000 morreriam até o final daquele ano.
Um ano após a tragédia, o jornalista norte-americano – John Hersey – foi até a cidade. Procurou por 6 sobreviventes e escreveu sobre suas histórias. Sua reportagem foi publicada no The New Yorker, ocupando a edição por completo. A repercussão foi imensa, e justamente em um período em que o governo americano trabalhava para abafar os relatos e repercussões do que acontecera (a Guerra Fria estava por começar).
O escritor não se calou, muito menos as pessoas que se revoltaram com o acontecido. Nessa obra, acompanhamos em primeira mão as vidas de Toshiko Sasaki (funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia), Masakazu Fujii (médico particular), Hatsuyu Nakamura (viúva e dona de casa) e seus 3 filhos – ainda crianças de 10, 8 e 5 anos -, Wilhelm Kleinsorge (padre alemão), Terufumi Sasaki (cirurgião do hospital da Cruz Vermelha), e Kiyoshi Tanimoto (reverendo). Cada um deles, naquele fatídico dia, acordara cedo para cumprir com suas obrigações e afazeres: cuidar da casa, preparar as refeições para a família, seguir para o trabalho, carregar móveis para outros locais mais seguros – afinal, todos esperavam que algum tipo de bombardeio atingisse acidade, só não imaginaram aquilo.
Em seus relatos, todos afirmaram não ter ouvido nada no momento da explosão, nem um som sequer. O mundo ficou em silêncio... e depois... o caos. Casas foram abaixo, pessoas desapareceram, incineradas, outras foram lançadas pelo ar, muitas com queimaduras preocupantes. O hospital da Cruz Vermelha em pouquíssimo tempo ficou lotado. O jovem Terufumi Sasaki, que pela posição em que se encontrava não sofreu nenhum dano físico aparente, passou dias sem descanso, cuidando dos feridos. Muitos não sobreviveriam até o dia seguinte.
Os médicos, incansáveis, faziam o que podiam. Aqueles que não foram atingidos se mobilizaram para socorrer as vítimas mais graves. Muitas pessoas soterradas não puderam ser resgatadas. Em poucas horas, com o sopro do vento, os incêndios se espalharam pela cidade, e as pessoas precisaram se abrigar nos rios para não serem atingidas – muitos morreram afogados.
Águas contaminadas, solo contaminado, ar contaminado devido a radiação liberada pela bomba. Os sobreviventes que correram para o bosque – ponto de encontro determinado pelos líderes dos bairros ao redor – sofreram por horas sem nenhum tipo de socorro do governo e das autoridades. O padre Wilhelm e o reverendo Tanimoto deram tudo de si para auxiliar as crianças órfãs, as viúvas e os jovens.
Muitas grávidas entraram em trabalho de parto, mulheres e recém-nascidos morreram devido às condições. Outros ficaram presos por dias em seus abrigos antibombas, sem ter noção do tempo que passava ou se já era seguro sair. A falta de cuidados médicos, sem dúvidas, impactou a recuperação de muitas pessoas. Não foi apenas a bomba que destruiu a vida de milhares de pessoas, mas também as consequências dos eventos seguintes.
Diversas vítimas que, no momento, não haviam apresentado sintomas, sofreram tempos depois de intensa diarreia, alteração no número de plaquetas, dores musculares, queda severa de cabelos, febre alta, hemorragias espontâneas, infecções generalizadas, úlceras na boca e garganta, extrema fadiga e fraqueza – essas vítimas ficaram conhecidas como “Hibakusha”.
O interessante nessa obra, além de todas as informações obscuras desse terrível evento marcado na história, é o fato de que o jornalista retornou à cidade 40 anos depois, para apurar o que acontecera na vida desses sobreviventes. Ao final, ele relata o que se passou depois de tanto tempo, quais rumos as vidas das crianças seguiram, os mais velhos que morreram e os que ainda seguiam lutando todo dia contra os traumas vividos.
Hiroshima... "O ápice da tecnologia humana encontrou o abismo da nossa própria humanidade: em Hiroshima, o sol nasceu duas vezes em um único dia, mas o segundo trouxe a escuridão eterna para milhares de vidas."

Ler essa obra foi muito impactante. Eu simplesmente não conseguia largar o livro.
Os acontecimentos narrados em primeira mão pelos sobreviventes, e relatados por John Hersey, nos fazem pensar em como a maldade humana e a nossa capacidade para prejudicar o outro (e destruir nossa própria espécie) é extensa e poderosa.
Deus deu o dom da sabedoria para muitas pessoas em diversas áreas… se apenas utilizássemos isso para fazer o bem ao invés de fomentar as guerras…
Hiroshima é um exemplo claro e direto do que a ânsia pelo poder e pela vitória pode causar. Quantas vidas foram afetadas indiretamente por essa explosão… Não apenas as pessoas que estavam lá na hora da tragédia, mas seus descendentes - através da genética - certamente lidam com as repercussões até hoje.
Assim como não devemos esquecer os sofrimentos enfrentados pelos judeus durante o nazismo de Hitler, também não devemos esquecer os traumas causados nas vidas de milhares de cidadãos e famílias inocentes no Japão (não apenas Hiroshima, mas também Nagasaki, que foi atingida pela bomba de plutônio apelidada de Fat Man).
Essa é uma leitura que choca, porque traz a realidade do que o homem é capaz de fazer para conseguir o que quer, indo a extremos antes inimagináveis da maldade humana.
Boa leitura!
John Hersey

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