Os Maias

“Obra máxima de Eça de Queirós, Os Maias envolve o leitor na irresistível atmosfera da Lisboa de fins do século XIX. Tendo como protagonistas Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda, e apresentando outros personagens memoráveis, como João da Ega, Dâmaso Salcede e o casal Gouvarinho, o livro narra a trajetória de três gerações de uma família, a história de um amor impossível e os rumos de um país.

Neste marco da literatura portuguesa, Eça dá vida a um refinado jogo social e compõe um panorama da cultura e dos problemas sociais e políticos do seu temo, numa prosa limpa, cortante e inigualável.”

Informações:

Editora: Zahar

Autor: Eça de Queirós

Ano da 1ª publicação: 1888

Ano desta edição: 2017

Gênero: Romance

Páginas: 751

“A vida é feita de desapontamentos.”

Mais uma vez Eça de Queirós traz uma narrativa pronta para quebrar com os dogmas sociais, chocar o público e revelar a hipocrisia de sua época. Em Os Maias, o autor conta a história de 3 gerações de uma família e os desenganos que sofreram, assim como as tragédias que os acometeram.

A história começa falando sobre como os Maias são uma família antiga e sobre a fama que sua principal residência, o Ramalhete, adquiriu com o passar do tempo. Afonso da Maia fora um revolucionário em sua juventude, lendo sobre os ideais republicanos nos quais acreditava firmemente e causando o desgosto do pai, Caetano da Maia – monarquista e católico fervoroso –, que o despejou de casa, exilando-o à Quinta de Santa Olávia, outra propriedade da família.

Depois de algum tempo em isolamento, o rapaz voltava à casado pai mostrando-se corrigido dos maus caminhos e pedindo patrocínio para seguir em direção à terras inglesas. O pai, orgulhoso da mudança observada, sem hesitar concede o desejo do rebento. Contudo, com a morte de Caetano, Afonso precisou retornar à Lisboa para cuidar dos negócios da família. Foi então que conheceu Dona Maria Eduarda Runa, filha do Conde de Runa, por quem se apaixonou; em pouco tempo casaram-se. O casal teve um filho, Pedro da Maia.

Afonso sentia saudades da Inglaterra, por isso, após sofrer uma perseguição injusta, juntou suas coisas e levou a mulher e o herdeiro para os arredores de Londres. A esposa, contudo, sofria por estar longe da família e da terra natal, agarrando-se com todas as suas forças à religião e ao filho que criava agarrado às saias. Tal situação incomodava Afonso, mas, compreendendo o sofrimento da mulher, permitia. Assim, Pedro cresceu sem determinação, inexperiente, sem grandes ambições intelectuais e profissionais e com uma saúde instável.

Não demorou muito para que a pobre mulher falecesse, mas à essa altura o caráter e a personalidade do jovem herdeiro já estavam formados. Havia pouco que Afonso pudesse fazer para mudar a constituição do rapaz. Pedro ,muito apegado à mãe, sofrera imensamente com a perda desta e precisou de um longo tempo para se recuperar do trauma vivenciado.

Já mais velho e de volta em Lisboa, Pedro da Maia estabelecera um círculo de amizade com outros jovens da elite – seu melhor amigo era Alencar, um jovem poeta e amante da boêmia. Certo dia cruzou olhares com uma jovem vinda da colônia, seu nome era Maria Monforte – encantara-se pela beleza dela instantaneamente.

As origens da moça eram questionáveis e o pai dela era suspeito. Devido a isso, Afonso foi completamente avesso a um envolvimento mais sério entre os dois, mas indo contra as ordens do pai, Pedro casara-se no meio da noite com a moça e, juntos, partiram para a Itália e depois para a França.

Completamente apaixonado, Pedro fazia todas as vontades da esposa. Logo veio a primeira filha e, quando enfim decidiram retornar para Lisboa, Maria insistiu para que o marido se reconciliasse com o pai – não pela paz familiar, mas porque tinha interesse em aparecer na corte de braços dados com o sogro que era tão bem visto e respeitado por todos. Receberam uma rejeição imediata e, em retaliação, a mulher ofendia a torto e a direito o patriarca.

Maria engravidou pela primeira vez, dando à luz a uma menina e poucos anos depois a um menino. A casa deles vivia repleta de amigos da alta sociedade, sempre oferecendo festas e saraus. Maria vivia rodeada de homens e gostava da atenção que chamava. Já o marido, sentia-se preocupado com as cortesias que desviavam o olhar da esposa…

“- Não, com efeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais vale! Se ele é verdadeiro, se é profundo, tudo o mais é vão, nada mais importa…”

Certo dia um príncipe, fugido de Nápoles, fizera amizade com Pedro da Maia e, juntos com Alencar, saíram para caçar. Durante a prática, um acidente acontecera, e Pedro decidiu recebê-lo em sua casa para que se hospedasse enquanto se recuperava da ferida. O que ele não esperava é que sua esposa se envolvesse com o tal príncipe e, no meio da noite, fugisse com  afilha e o amante – deixando-lhe apenas o filho.

Desesperado e desiludido, Pedro e o jovem herdeiro – ainda de colo – seguem em direção à Benfica, onde Afonso estava residindo, em busca de consolo e acolhimento. O patriarca recebe os dois, não com altivez, mas com compaixão e compreensão pelo sofrimento do filho. Contudo, mais uma tragédia os abate durante aquela noite quando Pedro da Maia comete suicídio. Apenas com o neto, Afonso toma as rédeas da criação do pequeno. Ele procura descobrir o paradeiro da nora e da outra neta, mas não consegue encontrá-las, e muitos anos depois recebe uma notícia de que elas tinham falecido no estrangeiro.

Afonso e Carlos da Maia passaram a residir em Santa Olávia,e o avô contratara um preceptor inglês para educar o jovem nos estudos e nas atividades físicas. Uma rotina regrada, mas de acordo com o crescimento da criança os envolvia. Nessa propriedade, Carlos cresceu e se desenvolveu, tornando-se um jovem promissor.

Ao atingir a idade, o jovem prestou o exame e seguiu a carreira acadêmica formando-se em medicina. Passou anos viajando pela Europa e, quando retornou, ele e o avô decidiram residir o famoso Ramalhete, em Lisboa. Carlos da Maia tinha muitos planos, escrever um livro de história da medicina, abrir sua própria clinica e colocar em prática tudo o que aprendeu, montar um laboratório para desenvolver suas pesquisas... Não passaram de planos.

Carlos teve tudo que pediu para dar início aos seus ideais, mas o conforto da vida fácil que a riqueza da família lhe garantia o mantinha inerte para tomar uma atitude de fato. O que o envolvia constantemente era a sociedade, as festas, os saraus, os relacionamentos que mantinha com mulheres casadas... Sem desenvolver um compromisso com nada nem ninguém.

As amizades também não lhe faltaram – João da Ega era o mais fiel de todos -, chamando a atenção até mesmo de Dâmaso (outro jovem da alta sociedade, mas menos rico que Carlos, e que o invejava ao ponto de lhe copiar em tudo). Dâmaso gabava-se de conhecer uma bela brasileira que chegara a pouco tempo em Lisboa com o marido, Castro Gomes.

Carlos a vislumbrara de longe certo dia, e isto foi tudo o que precisou para que ele não mais a tirasse da cabeça. Ele que nada despertara um interesse profundo a ponto de correr atrás e conseguir a qualquer custo ,agora sentia a necessidade primitiva de conhecê-la, de adentrar na sala dela e tornar-se íntimo para, aos poucos, conquistá-la.

Carlos tentou, procurou por ela em todos os lugares em que sabia que ela estaria, mas a presença da moça sempre lhe escapava, eles sempre se desencontravam... Até que um dia, por uma reviravolta do destino, a preceptora da filha dela precisou de atendimento médico, e recorreram a ele.

Agora Carlos Eduardo a conhecia... tornava-se presença constante na sala de Maria Eduarda... E o envolvimento dos dois ainda vai dar muito o que falar... (além de ser o catalisador para mais uma tragédia na história dos Maias).

“Não era possível. Tais coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções sutis da arte, para dar à alma humana um terror novo…"

Levei tempo para conseguir completar essa leitura… Eça de Queirós me manteve presa à sua obra por um bom mês.

Os Maias é uma história cheia de reviravoltas entre as relações humanas, onde podemos observar a complexidade das sociedades e dos relacionamentos, pessoas que mal se conhecem, que criam planos para a sua vida, mas por terem nascido em berço de ouro nada fazem para realmente mudar algo ao seu redor - são apenas falácias…

A vida de Carlos da Maia não foi fácil, abandonado pela mãe, o pai cometeu suicídio, separado da irmã, cresceu com altas expectativas em cima dele - do que ele poderia alcançar…. Certamente isso influênciou o caráter e a resolução que ele tinha. Carlos Eduardo muito planejava e pouco realizava. Ao conhecer Maria Eduarda, o interesse foi imediato.

E parece que a história da família vai se repetir: uma moça de origens desconhecidas, muito bela, que apareceu de repente em meio a alta sociedade de Lisboa, instiga o interesse de um jovem rico… Ah, meus jovens… se vocês dois apenas soubessem de suas próprias histórias antes de se envolverem.

Mas a juventude tem disso (algo que aparentemente não mudou com o passar dos anos), é imediatista. Quer tudo no agora, quer tudo do seu jeito, sem pensar com clareza, sem meditar sobre a situação, sem se aconselhar antes de fazer suas escolhas. Afinal, quem sabe melhor do que os jovens, não é mesmo?

Confesso que, impaciente, fui buscar spoiler na internet… Mas ler o desenrolar dos eventos foi bem chocante.

Pois é, Eça de Queirós, você se superou mais uma vez com uma obra que, tenho certeza, abalou as estruturas de Portugal quando foi publicada.

Aproveitem esta obra-prima, meus queridos leitores!

“Mas o teu caso é simples, é o caso de Don Juan. Don Juan também tinha essas alternações de chama e cinza (…) Tu és simplesmente, como ele, um devasso; e hás de vir a acabar desgraçadamente como ele, numa tragédia infernal!”

Eça de Queirós

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