“Não estávamos a mercê do destino ou da sina, mas sim de nossas próprias escolhas. Quando nos voltamos um para o outro como flores se virando para o sol, não estávamos cumprindo uma profecia ou seguindo uma antiga narrativa. Estávamos escrevendo nossa própria história.”

Editora: Rocco
Autora: Luna McNamara
Ano da 1ª publicação: 2023
Ano desta edição: 2023
Gênero: Romance (Lendas/Mitologia Grega)
Páginas: 317
A história de Psiquê e Eros, escrita por Luna McNamara, sofre algumas variações do mito original desses dois personagens tão envolventes graças à liberdade poética. Sendo assim, é normal que algumas informações sejam trocadas e, aqui, uma coisa que achei bem interessante acontece: diversos mitos se encontram.
Tudo começa com o “nascimento” de Eros ou, na verdade, seu surgimento no mundo. A obra, que tem seus capítulos divididos de acordo com os pontos de vista dos personagens, narra que, assim como os demais titãs do panteão grego, ligados aos poderes elementais do Caos, Eros caminhava pela Terra sem um verdadeiro propósito, sem entender quem ele realmente era e do que era capaz de fazer.
Eros logo formou uma forte amizade com Gaia, a titã da terra, e nela usou pela primeira vez seus poderes. Flechou-a, ligando ela a Urano, o titã do céu. O irmão gêmeo de Éris, a titã da discórdia, observou de longe a evolução do relacionamento dos dois: o início do romance, os anos bons e, em seguida, a decadência e o sofrimento pelo qual sua querida amiga foi forçada a enfrentar. Assim, ele se desencantou pelo poder que tinha: o desejo era capaz de despertar determinação e diversos sentimentos positivos, mas também os ciúmes, a inveja, a vingança e diversos outros sentimentos negativos; ele descobriu isso ao observar todos os mortais e imortais que tentara ajudar espalhando o amor sofrerem as consequências dos enlaces amorosos aos quais eram submetidos. (Zéfiro, o titã dos ventos, também se tornou uma presença necessária na vida de Eros, mantendo sua presença amiga e conselhos sempre a disposição do protagonista).
Por outro lado, temos Psiquê, filha dos reis de Micênia –Alceu, filho de Perseu e neto de Zeus, e Astidâmia. Uma observação: nessa narrativa, Alceu é colocado como irmão mais velho de Agamemnon e Menelau, portanto herdeiro do trono de Micenas; Agamemnon liderava um grupo nômade e Menelau em breve se casaria com a herdeira de Esparta, tomando para si o reino dela.
Quando a rainha ficou grávida, o rei decidiu visitar o oráculo de Delfos para saber se o filho tão esperado seria um grande herói como tinha idealizado. Ao saber que a mulher esperava uma menina, a decepção começou a tomar conta do coração do velho monarca, mas a determinação se renovou quando soube da profecia que acompanharia a vida da princesa: ela estava destinada a derrotar um monstro que era temido pelos próprios deuses.
Assim Psiquê cresceu, sabendo de seu destino, mas sem realmente entender que monstro poderia causar medo no Olimpo. Ela foi treinada pelo pai e, mais tarde, por Atalanta – uma famosa guerreira grega que, pela primeira vez, estava aceitando uma pupila.
A jovem crescera ouvindo histórias sobre os grandes heróis, como Hércules e Aquiles, Perseu (seu avô) e Atalanta, e seu maior sonho era que seu nome entrasse para a história como essas figuras históricas tão proeminentes. Por isso, ela por toda sua vida encarara de frente os desafios que lhe eram lançados e superava os obstáculos, ganhando conhecimento estratégico, sabedoria filosófica e habilidades práticas de guerra.
Psiquê e Eros tinham vidas completamente diferentes e seria muito difícil que realmente viessem a se encontrar um dia, não fosse por Afrodite...
A deusa do amor, que surgira da espuma das ondas e fora adotada por Zeus, mesmo sendo mais nova, adotara Eros como seu filho – uma forma de protegê-lo da ira do líder do panteão grego por este não ter se envolvido na guerra dos deuses contra os titãs e na vitória contra Cronos, pai de Zeus, Poseidon, Hades, Hera, Deméter e Héstia.
Ao saber da beleza e formosura de Psiquê, a inveja e ódio que a deusa nutria pela princesa foi inflamado. Ela não aceitaria que uma mera mortal ficasse conhecida por ser a mais bonita. Foi por isso que ela buscou Eros, queria que ele acertasse uma de suas flechas na pobre moça quando esta estivesse dormindo – a diferença é que essa flecha seria para que ela se apaixonasse pelo primeiro homem que visse e no momento em que Psiquê e o amado cruzassem os olhos, eles seriam afastados para sempre um do outro.
Eros, que ganharia um favor ao cumprir a ordem de Afrodite, parte em sua missão. O problema na conclusão desta é que na hora em que ele ia acertar Psiquê, pela primeira vez em sua imortalidade se atrapalhara ao pegar a flecha amaldiçoada, cortando a si mesmo com a ponta dela. Sua realização do fato foi no mínimo curiosa. A partir de então, Eros vive em agonia – apaixonado por Psiquê, mas sem poder se aproximar dela, pois quando cruzassem os olhares seriam afastados um do outro para sempre – e pior, ela nem imaginava que despertara a afeição de um deus, mesmo que por influência de uma flecha.
Sem saber o que fazer, ele tentara de tudo – até procurar Afrodite em busca de um antídoto, sem deixar que ela percebesse que sua missão falhara, é claro. Mas nada funcionava. Sua agonia seria eterna, e nada fazia com que ele esquecesse Psiquê. Foi aí que Zéfiro lhe dera uma ideia: raptar Psiquê e encontrar-se com ela, como um marido, sempre na escuridão da noite. Seria infalível, ou era isso que ele achava.
Psiquê que já estava se consagrando como uma heroína em seu reino, infelizmente sofrera um baque ao saber que seu pai planejava casá-la com Nestor, rei de Pilos, um homem de mais de 50 anos (enquanto Psiquê tinha apenas 18). De todas as formas ela tentava se opor a esse casamento arranjado, mas nem mesmo a mãe ficara do lado dela. Helena já era casada com Menelau, e Ifigênia se tornaria uma sacerdotisa de Ártemis, Psiquê matara um dragão, mas não havia nem sinal do tal monstro que atemorizava o Olimpo e a quem ela estava destinada a derrotar. O reino precisava de um herdeiro e ela, por ser mulher, não herdaria o trono. A princesa precisava gerar um filho.
Em uma virada do destino, os aldeões desesperados apareceram em busca da princesa, pois um monstro estava destruindo todas as casas do vilarejo e eles precisavam dela para salvá-los. Psiquê segue, confiante de que seu momento finalmente aparecera. Quando chegou no local não viu nada nem ninguém, mas uma força invisível a levantara do chão e a carregara pelas correntes de vento até uma cabana na praia, que parecia estar desabitada. Ela não viu ninguém durante todo o dia, mas ao cair da noite, no meio da escuridão, um homem surgira. Ele dizia que era o marido de Psiquê, a quem os pais dela a tinham destinado. Não era Nestor, disso a princesa tinha certeza, mas não conseguia ver a fisionomia de seu novo cônjuge. Ele lhe contara que não poderiam se ver, nunca. Psiquê jamais poderia acender a luz enquanto ele estivesse presente, e ela aceitou a condição mesmo desconfiada.
A situação durou por bastante tempo, e os dois conseguiam estar na presença um do outro quando Eros, que não revelara sua identidade, mudava sua aparência para formas animais. Uma amizade aos poucos foi surgindo entre os dois e a parceria e cumplicidade que construíram ao longo do tempo deu espaço para o sentimento romântico que brotava no coração de Psiquê.
Até que a curiosidade dela tomou conta e ela não pôde mais aguentar não ver a face do marido. No meio da noite, enquanto ele dormia, a princesa acendeu uma vela e a aproximou do rosto sonolento do homem... ele era lindo, o homem mais bonito que já vira... e ela o estava admirando... até que uma gota de cera quente escorrera da vela e caíra no rosto de Eros, que acordou assustado. Quando eles cruzaram os olhos, o deus do desejo foi levado instantaneamente para longe e a bela cabana que eles habitavam foi destruída – Psiquê escapara da morte por pouco.
Com a verdade de sua situação revelada, ambos começam a duvidar dos sentimentos que construíram juntos: será que ele/ela a/o amava mesmo? Ou eram apenas consequências da maldição?
Não importa, de uma coisa eles sabiam: precisavam se rever, estar na presença um do outro. E, para isso, só tinha um jeito – Psiquê precisava passar pela apoteose e ascender a deusa do Olimpo. Para que isso pudesse se concretizar, uma votação teria que acontecer e Eros estava trabalhando para conseguir o apoio de seus aliados; ou então, Psiquê deveria enfrentar três missões difíceis para Afrodite e cumpri-las dentro do prazo determinado ou seria para sempre escrava da deusa.
E agora? Será que eles conseguirão se reencontrar? Será que seus sentimentos e o amor que sentem um pelo outro são fortes o bastante para vencer as barreiras que surgiram e lutar um pelo outro?
(Em meio a tudo isso, os mitos de Prometeu, Belerofonte, Jacinto, Adônis, Helena e Ifigênia também são narrados como tramas secundárias.)

Essa é uma obra feita especialmente para os amantes de romance e mitologia grega!
Eu amei ler essa versão do mito de Psiquê e Eros, uma história que influência ramos da psicologia e psicanálise até hoje!
Sem contar nos vários mitos gregos que também estão presentes na obra - a maneira como a autora entrelaçou tantos personagens distintos e suas histórias foi incrível, tudo muito bem amarrado.
Foi uma leitura muito divertida, que ascendeu a minha imaginação ao período clássico grego e me encantou com a maneira como a relação dos protagonistas foi evoluindo (o romance não é algo rápido, mas muito bem construído e as diversas fases de um relacionamento foram muito bem retratadas).
Nos mostra que a chama da perseverança, da determinação e do amor ainda estão acesas, mesmo nessa nossa sociedade morna e líquida. Romances como Psiquê e Eros precisam ser muito mais divulgados e valorizados, esses sim devem ser inspirações para as novas gerações: uma obra que traz ensinamentos de vida (pessoal e amoroso), assim como nos eleva ao plano imaginário e criativo da fantasia e nos deleita com um romance simples, porém repleto de obstáculos e no qual os dois precisam lutar e dar tudo de si para permanecerem juntos mesmo contra todas as expectativas.
E você? Também gosta de mitologia e romances? Já deu uma chance para este livro? Então aproveite agora e depois me conte o que achou!
Luna McNamara

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